15 anos sem Paulo Freire

Hoje, 2 de maio, faz 15 anos que Paulo Freire não está mais entre nós. Impossível não lembrar. Agradecemos a sua história, o ser humano que foi e o legado que ele nos deixou.

E para celebrar sua existência e suas valiosas contribuições, destacamos um trecho do livro Política e educação¹ :

Ninguém nasce feito: é experimentando-nos no mundo que nós nos fazemos 

Ninguém nasce feito. Vamos nos fazendo aos poucos, na prática social de que tornamos parte. Não nasci professor ou marcado para sê- lo, embora minha infância e adolescência tenham estado sempre cheias de “sonhos” em que rara vez me vi encarnando figura que não fosse a de professor. (…) Eu tinha, na verdade, desde menino, um certo gosto docente, que jamais se desfez em mim. (…) Às vezes, ou quase sempre, lamentavelmente, quando pensamos ou nos perguntamos sobre a nossa trajetória profissional, o centro exclusivo das referências está nos cursos realizados, na formação acadêmica e na experiência vivida na área da profissão. Fica de fora como algo sem importância a nossa presença no mundo. É como se a atividade profissional dos homens e das mulheres não tivesse nada que ver com suas experiências de menino, de jovem, com seus desejos, com seus sonhos, com seu bem-querer ao mundo ou com seu desamor à vida. Com sua alegria ou com seu mal-estar na passagem dos dias e dos anos. Na verdade, não me é possível separar o que há em mim de profissional do que venho sendo como homem. (…) Como não perceber, por exemplo, que de minha formação profissional faz parte bom tempo de minha adolescência em Jaboatão, perto do Recife, em que não apenas joguei futebol com meninos de córregos e de morros, meninos das chamadas classes menos afortunadas, mas também com eles aprendi o que significava comer pouco ou nada comer. Algumas opções radicais, jamais sectárias, que me movem hoje como educador, portanto como político, começaram a se gestar naquele tempo distante. A Pedagogia do oprimido, escrita tanto tempo depois daquelas partidas de futebol ao lado de Toinho Morango, de Reginaldo, de Gerson Macaco, de Dourado, cedo roídos pela tuberculose, tem que ver com o aprendizado jamais interrompido, que comecei a fazer naquela época – o da necessidade de transformação, da reinvenção do mundo em favor das classes oprimidas.

¹FREIRE, Paulo, 1993. Política e educação. São Paulo: Cortez. Pag. 40

Destacamos também entrevista que Paulo Freire concedeu ao jornalista Edney Silvestre, na Universidade de Harvard (Massachusets), em que falou como gostaria de ser lembrado: