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Paulo Freire foi exemplo da eficácia da metodologia que criou

17/09/2008 - Janaina Abreu

A primeira conferência da quarta-feira (17) teve como tema a Pedagogia do Oprimido: 40 anos depois. Ângela Antunes, diretora Pedagógica do Instituto Paulo Freire, coordenou esta terceira mesa de conferências do VI Encontro Internacional do Fórum Paulo Freire apresentando o professor Celso de Rui Beisiegel, da USP, um dos principais conhecedores da obra freiriana no Brasil, autor de Política e Educação Popular: a teoria e a prática de Paulo Freire no Brasil (Liber Livro, 2008).

Em sua palestra, Beisiegel fez uma avaliação da trajetória das quatro décadas da Pedagogia do Oprimido. “O ponto de partida do que vivemos hoje foi as 40 horas de Angicos.” O método Paulo Freire, que teve suas raízes na miséria do Nordeste, em particular em Recife, ganhou fama a partir de Angicos (Rio Grande do Norte). Tratava-se de um processo de alfabetização de adultos, aliada à conscientização e à politização para transformar a realidade em uma sociedade democrática, tornando-a mais humana e, conseqüentemente, mais justa.

Segundo Beisiegel, o material didático produzido naquela época apontava a transformação da sociedade pelo voto, a arma do povo. Porém, o processo de discussão dessa reforma nacional na educação foi interrompido com o golpe militar de 1964 e a proposta de Paulo Freire, descartada, desconsiderada pelo novo regime.

Já no Chile, onde se exilou, Paulo Freire foi submetido a um desafio cotidiano por setores de esquerda que o questionavam sobre a importância e a validade de suas práticas educativas. “Paulo Freire se reeducou. Foi um dos melhores alunos e exemplos de eficácia da metodologia que ele mesmo criou.” Neste período, concebeu a Pedagogia do Oprimido, publicada primeiramente no EUA, em 1968. No Brasil, permaneceu na clandestinidade até 1975 quando foi, finalmente, pela primeira vez liberada por aqui. A partir daí, esta obra continua sendo publicada e comentada em vários idiomas e nos diferentes continentes.

Beisegel analisando a bibliografia de Pedagogia do Oprimido, chama-nos a atenção para o contínuo processo de busca de conhecimento e informação que caracterizava Paulo Freire. A partir desta obra já se pode observar seus novos referenciais de esquerda, tais como: Mao Tsé-Tung, Hegel, Dom Helder, Camilo Torres, Fanon, Amoroso Lima, Marx e muitos outros. Paulo Freire, com sua sensibilidade apurada, vai se tornando cada vez mais radical, jamais sectário.

A obra reafirma a esperança

Alipio Casali, da PUC-SP, contribuiu para a reflexão dos participantes fazendo a leitura de trechos de sua palestra A Pedagogia do Oprimido: de clandestina a universal. Casali enfocou o caráter “clandestino” da obra de Paulo Freire, que se tornou fundamental e universal. Falando sobre essa cladestinidade, comentou fatos curiosos da época, tais como a história de uma freira americana que para ler Paulo Freire colocava capas religiosas nos livros. Lembrou também um encontro de Freire com um grupo de estudantes indianos que disseram:“Tu escreveste este livro para nós, pois é a mesma coisa”. Fatos como estes confirmam o cárater universal da obra. À època, apesar da repressão, os livros de Paulo Freire chegavam no Brasil e no mundo.

Outra marca da universalidade da Pedagogia do Oprimido, segundo o palestrante, é a afirmação de que todos os seres humanos têm direito a educar-se para superarem sua condição de opressão. A obra vem dizer como se educa, para quem se educa, por meio de uma práxis transformadora. “Paulo Freire mostrou que os oprimidos podem se libertar e buscar uma vida mais humana”. Para Casali, um outro nome para a Pedagogia do Oprimido é Pedagogia da Esperança, pois ela reafirma a esperança.

Sonhos e utopias são fundamentais para a vida

Miguel Escobar, da Universidade do México, trouxe para a mesa suas lembranças do convívio com Paulo Freire entre 1974 e 1978 na Suíça e em São Tomé e Príncipe, alguns dos lugares por onde andou na condição de exilado político. Assim como já havia feito Carlos Rodrigues Brandão, no dia anterior, Escobar lembrou Elza Freire como “uma grande mulher. Construiu a Pedagogia do Oprimido com Freire”. Com fotos de Elza e Paulo, ilustrou a homenagem, tornando-a mais comovente, principalmente para aqueles que tiveram o privilégio de conviver com o casal de educadores que tanto contribui com a nova concepção de educação no Brasil e no mundo.

Escobar comentou sobre estudantes que trabalham e procuram resgatar o cotidiano, por exemplo, estudando o silêncio, “porque existe muita injustiça e nada é dito”. Estimulou a todos a buscar, como Paulo Freire, a construção de uma sociedade comprometida com as lutas sociais revolucionárias. Lembrou que o mestre brasileiro também admirava líderes revolucionários como Che Guevara, em Cuba, comandante Marcos, no México e outros.

Finalizou, assegurando que propostas revolucionárias podem estar inseridas em vários momentos e de diferentes formas e que a Pedagogia Erótica é uma delas. “É uma proposta que dever ser aplicada na sala de aula. Usamos a poesia, os sonhos e a utopia. Sonhos e utopias são fundamentais para a vida.”

Paulo Freire no movimento sindical

Silvia Manfredi, do IPF-Itália e Unicamp, lembrou a trajetória do movimento sindical das últimas décadas, partindo dos anos 60. Com muito entusiasmo, comentou como a matriz freriana fundamentou, embasou, a proposta metodológica do movimento sindical, o que podia ser denominada de Pedagogia da Resistência. Assegurou também que ela foi a base dos Centros de Educação Popular que pipocaram pela América Latina, além de constituir fundamentos da criação da CUT e do projeto educativo do MST. “Somos herdeiros de uma herança latino-americana que nos cabe recriar sempre”, concluiu Manfredi.

Educadores italianos e influência freiriana

Piergiorgio Reggio, do IPF-Itália e Universidade Católica de Milão, também falando da influência freiriana, lembrou que durante alguns anos a proposta do educador brasileiro permaneceu subvertida, não explicitada, dentro do processo educacional italiano. Contudo, afirma o professror Reggio, “hoje há um movimento que busca torná-la exposta, uma proposta claramente contra a exclusão”.

História da educação do tempo presente

Afonso Celso Scocuglia, UFPB, iniciou sua exposição afirmando que “a história da educação do tempo presente é uma história prospectiva”. Aliás, afirma ele, isso está no título do VI Encontro Globalização, Educação e Movimentos Sociais: 40 anos da Pedagogia do Oprimido. E continua ele: “... o passado não se separa do presente, para falar do passado, partimos do presente”. E destacou a defesa de Paulo Freire sobre a história “como possibilidade do novo, somadas às suas denúncias sobre o novo neoliberalismo...”. Focando a atualidade trouxe o pensador Boaventura de Souza Santos, falando das diferentes globalizações e da globalização contra-hegemônica já reinvindicada nas edições do Fórum Social Mundial.



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