|Notícia|
Tome seu lugar. Sente-se!
16/09/2008 - Carolina Gutierrez - Le Monde DiplomatiQUE Novamente ao Brasil, depois de dez anos, o Encontro Internacional Fórum Paulo Freire ocupa - agora com o Arca de Noé, de Ivaldo Bertazzo – o palco do Tuca numa abertura que revive a Pedagogia do Oprimido e destaca a importância da educação na mobilização social e na esfera da articulação local de uma sociedade.
A sexta edição do encontro Fórum Paulo Freire, que traz o tema Globalização, Educação e Movimentos Sociais: 40 anos da Pedagogia do Oprimido, acontece entre hoje (16) e sábado (20), na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC-SP). Participam do encontro pessoas que vivem, reinventam e atuam, de forma dialógica, o legado de Paulo Freire pelo mundo e pelo Brasil afora.
Na abertura, que reuniu cerca de 700 educadores(as), entre brasileiros e estrangeiros no Tuca e Tucarena, o resgate da educação popular e da pedagogia do oprimido em meio ao neoliberalismo globalizado foi o tema central. Evidenciou o pertencimento: do mundo, da cultura, do local, de si, como uma reapropriação da própria sociedade.
De boné, o despojado Carlos Torres, diretor geral Instituto Paulo Freire (IPF) de Los Angeles, abriu a 1ª Conferência relembrando a importância da memória histórica. “Esse ano, além dos 40 anos da Pedagogia do Oprimido, comemoramos 40 anos de maio de 1968, com a mobilização social universitária”. Relembrou também que a educação popular precede o próprio Paulo Freire e fez uma homenagem aos tantos anônimos que lutaram e morreram por uma educação libertária.
Junto com Lauren Jones, também do IPF de Los Angeles, Torres enfatizou a relevância de uma ampla mobilização - que relacionou a Freire –, uma luta para defender não uma parcela ou uma classe, mas uma luta política-pedagógica que atenda às necessidades dos oprimidos. Lauren faz parte da nova geração de freirianos e, dessa forma, reinventa, como tantos outros, o papel social do educador nos movimentos sociais, uma das formas de resgatar a educação para todos.
A concepção da escola como instituição fundamental para afirmação de uma ideologia foi exposta por Antônio Teodoro, do IPF de Portugal. A idéia é fugir e subverter tal dinâmica de controle social criada. “Temos de substituir o nacionalismo ideológico pelo cosmopolitismo ideológico rumo à cidadania planetária”. O educador destacou a concretização da igualdade e da oportunidade. A idéia de pertencimento reaparece. “Todos somos cidadãos do mesmo mundo. É a igualdade e o respeito pela diferença”, finalizou.
O economista e professor da PUC-SP Ladislau Dowbor entrou em cena com uma visão peculiar. Argumentou a centralidade do conhecimento nos processos econômicos. Segundo ele, existe hoje uma fragmentação do conhecimento gerada, justamente, pela criação de patentes do mesmo. Atualmente, a educação se transformou em um produto. Porém, Dowbor vê uma solução: o livre acesso ao conhecimento e à disponibilização do mesmo.
Para Dowbor, vive-se a Pedagogia do Oprimido em meio à economia da opressão e, por isso, defendeu: “Devemos provocar as pessoas para que vivam a sua realidade e, assim, se apropriem de instrumentos de transformação. E não provocar uma situação que funcione como um trampolim para fora daquela realidade. Temos que retomar a construção do local. Nem tudo é globalizado.”
Já Mario Sérgio Cortella, da PUC-SP, enfatiza: “Falamos muito do legado de Paulo Freire. Precisamos perguntar: qual o meu legado? Qual o seu legado? Se não, vivemos do legado alheio.”
A Pedagogia do Oprimido retoma a empatia – o ver e sentir-se no outro. Retoma, como disse Cortella, a Vida Maiúscula – dignidade, existência, cultura, identidade do oprimido, tema de sua apresentação. “Tome seu lugar. Sente-se. Isso tudo é seu."